A Língua como Poder e Barreira: O Caso Erika Hilton e o Abismo Educacional Brasileiro
- ADVOGADO CRIMINAL

- 6 de abr.
- 3 min de leitura
Recentemente, a deputada federal Erika Hilton tornou-se centro de um debate acalorado após a viralização de um vídeo que compilava pequenos deslizes gramaticais durante sua participação no programa Roda Viva.
O episódio, amplificado por figuras de oposição, gerou críticas que foram além do conteúdo político, focando na forma — especificamente em erros de concordância nominal e verbal. O fato de a parlamentar ter citado Machado de Assis como influência literária momentos antes serviu de combustível para a ironia de seus detratores.
No entanto, para além do embate ideológico, o caso levanta uma reflexão profunda sobre dois eixos centrais: a necessidade do domínio da língua portuguesa por representantes públicos e o abismo social que define quem tem acesso a esse domínio no Brasil.
A Língua Portuguesa como Instrumento Político
No campo da política, a palavra é a principal ferramenta de trabalho. A capacidade de articular ideias, redigir projetos de lei e debater em tribunas exige um aprimoramento constante da norma culta.
O domínio do idioma não é apenas uma questão de estética ou erudição; é uma questão de precisão legislativa. Um erro de concordância em uma fala pode ser interpretado como um deslize humano sob pressão, mas uma imprecisão gramatical em um texto de lei pode alterar direitos e deveres de toda uma nação.
Interessados em cargos políticos devem enxergar a língua portuguesa como um recurso de credibilidade.
Em uma sociedade ainda muito pautada pelo formalismo, o uso correto do idioma funciona como um cartão de visitas que pode abrir ou fechar portas para o convencimento e para a liderança.
A Deficiência Estrutural: Um Mal de Todas as Classes
Contudo, é necessário reconhecer que a "deficiência" no português não é exclusividade de uma classe ou ideologia. O Brasil enfrenta uma crise crônica de alfabetização funcional.
Dados do Inaf (Indicador de Alfabetismo Funcional) revelam que uma parcela significativa da população brasileira, inclusive com ensino superior, possui dificuldades em interpretar textos complexos ou realizar inferências básicas.
Essa deficiência atravessa estratos sociais:
Nas classes altas: O ensino muitas vezes foca em resultados imediatistas (vestibulares/concursos), negligenciando a leitura crítica e a escrita autoral.
Nas classes médias: A língua é usada muitas vezes de forma técnica e utilitária, perdendo-se o refinamento da norma culta.
Nas classes populares: É onde reside o verdadeiro abismo.
O Abismo da Alfabetização e a Exclusão Social
Enquanto o erro de um político é usado como arma de deboche, milhões de brasileiros carentes lutam para sequer ter acesso ao básico. O abismo entre a norma culta e a fala popular é, no Brasil, um reflexo direto da desigualdade de renda.
Para a população marginalizada, o acesso à alfabetização de qualidade é uma corrida de obstáculos. Escolas sucateadas, falta de incentivo à leitura em casa (muitas vezes por pais também analfabetos funcionais) e a necessidade precoce de inserção no mercado de trabalho criam uma barreira quase intransponível.
Quando uma figura que vem dessas bases chega ao poder e comete um erro gramatical, ela expõe uma ferida aberta: a educação brasileira falhou em algum ponto do caminho. Punir ou ridicularizar o erro linguístico de quem ocupa espaços de poder sem considerar a trajetória educacional do país é uma forma de preconceito linguístico, que serve para manter as estruturas de exclusão.
O aprimoramento da língua portuguesa deve ser uma busca constante para qualquer um que deseje representar o povo, pois a clareza é fundamental para a democracia. Entretanto, essa cobrança não pode ser dissociada de uma análise sociológica.
O Brasil precisa, urgentemente, encurtar o abismo entre o "falar bem" e o "ter acesso ao saber". A língua não deve ser usada como um pedestal para humilhar oponentes, mas sim como uma ponte para que todos os cidadãos, independentemente da origem, possam se expressar com plenitude e dignidade.

.jpeg)


Comentários